O inocente do Sócrates in, https://sol.sapo.pt/artigo/730993/o-inocente-socrates

Mudem-se os juízes in, https://sol.sapo.pt/artigo/730860/mudem-se-os-juizes

A Máscara , in https://sol.sapo.pt/artigo/729632/a-mascara

Lisboa pode ser Portugal 

Os partidos da direita não parecem por vezes compreender ou conseguir explicar o poder que o PS exerce em Portugal. Mas é disso que depende uma viragem no país.

05 mar 2021, 01:519

Carlos Moedas não vai apenas concorrer à Câmara de Lisboa. Isso já seria importante para a cidade, que bem precisa de um melhor governo e de horizontes para além do corrente “circo de aparências e de vaidades”. Mas Carlos Moedas vai fazer mais: vai enfrentar um dos grandes baluartes do poder socialista, uma Câmara Municipal há 14 anos dominada pelo PS, com um orçamento superior a um bilião de euros e 13 000 funcionários, mas que mesmo assim falta a todas as promessas (como as 6000 novas casas, ou os 14 novos centros de saúde). Se tiver sucesso, Carlos Moedas poderá provar uma coisa em que até agora pouca gente acreditou: que uma mudança em Portugal é possível sem uma mudança prévia da política do Banco Central Europeu — ou seja, que Portugal, apesar da sua dependência financeira, ainda tem independência política. Lisboa não é Portugal, mas Portugal vai ter os olhos em Lisboa nestas eleições autárquicas. É que se for possível libertar Lisboa da mão-morta socialista, talvez também seja possível libertar Portugal sem esperar por mais uma bancarrota. É tempo, como ontem disse Carlos Moedas, de dar aos portugueses – os lisboetas serão os primeiros — a “responsabilidade” de “escolher entre mais do mesmo ou escolher um recomeço”.

Contra a probabilidade de uma mudança em Portugal, é costume invocar as percentagens do PS nas sondagens de opinião, quando não a quantidade de dinheiro nórdico que está para vir. Esta suposta análise expressa o grande problema que existe em Portugal do ponto de vista de uma alternativa: a incapacidade de pensar na política a não ser como um derivado de outros factores, sobre os quais os políticos não teriam influência, como seja o financiamento externo do Estado. Mas não deveria a actividade política consistir precisamente em mudar o sentido da opinião nas sondagens, e não em conformar-se com ele? Não faria mais sentido encarar as sondagens como Carlos Moedas encara os anteriores resultados do PSD em Lisboa: “números do passado”? E não deveria a oposição ao actual governo olhar também para a garantia europeia de financiamento como mais uma vantagem para a alternância, uma vez que sossegue as classes dependentes do Estado em relação a ajustamentos financeiros como aqueles a que a direita foi obrigada em 2002-2004 e em 2011-2014, quando revezou os socialistas no governo? Desta vez, funcionários e pensionistas não têm de temer uma alternância de governo. Têm apenas, como os restantes portugueses, a começar pelos mais de 50% de abstencionistas, de perceber duas coisas: que essa alternância é possível, e que será vantajosa para o país.

Sim, a primeira condição de uma alternância é torna-la credível. Tirar ao PS e à maioria de esquerda algumas das grandes cidades do país pode ser uma forma de ganhar essa credibilidade. Fazê-lo com base num grande movimento agregador de diversos partidos e personalidades da sociedade civil, como pretende a candidatura de Carlos Moedas em Lisboa, será também um meio de demonstrar que as coisas serão diferentes. Mas há uma segunda condição para essa alternância: tornar muito claro que o principal problema do país, a causa do seu empobrecimento desde há vinte anos, do definhar da sua democracia, e do colapso dos seus serviços públicos, está no poder do PS, no modo como esse poder é intrinsecamente incompatível com “reformas estruturais”, com a liberdade dos cidadãos e com a eficiência dos serviços públicos.

É isso, infelizmente, que os partidos da direita, promotores necessários de uma alternativa, não têm sempre conseguido fazer. Nem os partidos mais antigos, como o PSD e o CDS (este sobretudo durante o tempo da anterior direcção), nem os partidos mais recentes, como a Iniciativa Liberal ou o Chega. Nem uns nem outros parecem por vezes compreender ou conseguir explicar o poder que o PS exerce em Portugal. Mas é disso que depende uma viragem no país.

O PSD e o CDS dão frequentemente a ideia de que estão à espera de que o Partido Socialista não seja o Partido Socialista. Mas o PS é mesmo socialista, e não só de nome: acredita no Estado e no poder político, e não nas iniciativas dos cidadãos e na autonomia da sociedade civil. Mais do que isso, o PS tem um projecto de poder que assenta no domínio do Estado pelos socialistas, e no domínio da sociedade pelo Estado. Sim, o PS resistiu ao PCP em 1975, e até governou, a seguir, com o CDS e depois com o PSD. Mas desde 1976, o PS só aceitou mudanças quando forçado por bancarrotas (como nos acordos com o FMI de 1978 e 1983) ou pressionado por maiorias de direita (como nas revisões constitucionais de 1982 e 1989). Entre 1985 e 1995, não apoiou nenhuma das grandes reformas da governação de Cavaco Silva. Sem a aversão de Mário Soares ao general Eanes, teria feito a “geringonça” logo em 1987. Se dependesse do PS, ainda haveria um só canal de televisão, naturalmente do Estado. É tempo de o PSD e o CDS compreenderem e fazerem compreender ao país que não se pode contar com o PS para tornar a sociedade portuguesa mais livre nem a economia portuguesa mais competitiva. Não está na natureza do PS.

Tão desanimadora como esta estranha expectativa do PSD e em menor medida do actual CDS em relação ao PS, é a incapacidade ainda mais bizarra da Iniciativa Liberal e do Chega de reconhecerem o PS no meio das denúncias que fazem de tudo e mais alguma coisa. Para a IL e o Chega, todos os outros partidos são “socialistas” ou do “sistema”. Mas o “sistema” que está estabelecido em Portugal é o do PS. O PSD e o CDS têm sido, desde 1976, os protagonistas do reformismo liberal que houve no país. É mentira que a AD, os governos de Cavaco Silva ou o governo de Passos Coelho tenham sido “socialistas”. Tratá-los como socialistas é uma forma de cobardia intelectual, porque é a maneira de não ver o elefante na sala: o poder socialista que submete o país desde 1995. Faz lembrar aqueles sábios que atribuem os problemas do país à “cultura” ou à “maneira de ser dos portugueses”, isto é, a tudo e a nada. Temos mesmo de ter um governo tão medíocre? Temos mesmo de ceder à importação das últimas modas da extrema-esquerda universitária americana? Temos mesmo de ser os pedintes da Europa? Se todos são “socialistas”, se todos são o “sistema”, como ensinam a IL e o Chega, a resposta é sim: não há alternativa. Nesse caso, para que servem a IL e o Chega? Será que, no fundo, os seus verdadeiros inimigos são o PSD e o CDS, com quem pensam que devem competir eleitoralmente? Nesse caso, quem é que, na prática, ajuda os “socialistas”, e quem é que, objectivamente, faz parte do “sistema”? O país não precisa de lições gritadas de nacionalismo nem de cursinhos básicos de liberalismo. Precisa de uma alternativa ao poder socialista. É tempo de a IL e o Chega demonstrarem que querem fazer parte da solução e não do problema.

Posto isto, percebe-se as dificuldades que os vários partidos à direita têm em enfrentar o PS. O PS não é um adversário fácil. Tem enorme poder, e exerce-o implacavelmente. Quem não está com o PS não aparece, e tem “problemas”. O PS joga também, como jogou sempre, com todos os equívocos. Mas a orientação fundamental do PS é clara. Todas as suas supostas “grandes paixões” dos últimos anos – educação, tecnologia – apontam para o Estado. Na União Europeia, viu sempre uma estrutura de apoio financeiro internacional do Estado, nunca um mercado para os cidadãos e as empresas portuguesas competirem. Não, o PS não rejeita a iniciativa privada, mas olha para ela como um compadre do Estado. A velha conversa do PCP e do BE sobre as “políticas de direita” do PS não devem distrair ninguém deste simples facto: o PS faz a política de esquerda que, desde 1976, é possível em Portugal. Tem todo o direito de o fazer. A direita é que tem obrigação de não se enganar.

O PS, pela sua ideologia e pelo seu projecto de poder, condena o país ao declínio, e agora, pela sua condescendência com a cancel culture de extrema-esquerda, também à degradação da memória e da cultura nacionais. Que restará do país com mais 10 anos de poder do PS? Estará talvez a disputar o último lugar com a Bulgária na hierarquia de riqueza da UE, e provavelmente já sem ideia da sua própria história, apagada segundo mandam as modas importadas dos EUA. Mas o país talvez já tenha ouvido isto. O que o país precisa agora de ouvir é que outro governo é possível, e que não consistirá simplesmente no esforço para fazer pagar por todos mais uma época de erros do PS. A direita portuguesa, neste século XXI, ficou marcada pelas duas experiências de ajustamento a que foi obrigada para evitar as bancarrotas da governação socialista. A política financeira da UE dá alguma garantia de que talvez não esteja condenada a passar outra vez pelo mesmo. Neste momento, a questão está em aproveitar os recursos e as oportunidades. Trata-se, portanto, de provar que, à direita do PS, há uma melhor visão para o país, e equipas mais capazes. Não fiquem à espera do PS, como às vezes parece ser o caso  do PSD e do CDS, aparentemente esmagados pelas suas experiências históricas, nem nos digam que o problema é um “socialismo” ou um “sistema” sem rosto nem nome, como fazem o Chega e a IL, do alto das suas enormes indigestões ideológicas.

“Lisboa pode e deve ser muito mais”, diz Carlos Moedas. O país também. Precisa de um governo que “invista nas pessoas”, isto é, que acredite na capacidade dos indivíduos, das famílias e das comunidades para, com os devidos recursos, encontrarem as melhores soluções. Para isso, vale a pena “unir o centro-direita em Portugal”, como pretende Carlos Moedas. Mas isso só será possível se todos, acima dos seus pontos de vista e até dos seus interesses, reconhecerem que o problema é o PS, e que por isso não se pode contar com o PS. É possível governar sem o PS? Vale a pena fazer essa experiência? Os Açores são uma prova importante. Lisboa pode ser tão ou ainda mais importante.  Carlos Moedas, o candidato indicado pelo PSD e apoiado pelo CDS, é o melhor presidente que a vereação municipal de Lisboa pode ter. O país não é Lisboa. Mas pode começar a mudar por Lisboa.

Bem vindos ao quinto país mais confinado do Mundo. Para ouvir em https://observador.pt/programas/contra-corrente/bem-vindos-ao-quinto-pais-mais-confinado-do-mundo/

O Racista que veio do Senegal, in https://sol.sapo.pt/artigo/725869/o-racista-que-veio-do-senegal

Um Governo Inocente, in SOL https://sol.sapo.pt/artigo/723540/um-governo-inocente

O fanatismo ideológico de Marta Temido (e de Costa) custou-nos milhares de vidas

Temido, Costa, parte do PS, o BE e o PCP quiseram montar uma bravata ideológica com a pandemia, quiseram mostrar que o SNS era suficiente e que não precisávamos do sector social e dos “privados” (esse vil inimigo interno) na frente covid e na frente não covid. O resultado está à vista: um excesso de mortalidade covid e não covid que nos humilha como país, que nos coloca no topo do excesso de mortalidade total desde março. A culpa não é só da ministra, é da ideologia geringonça que andou anos a diabolizar privados, misericórdias, PPP, até a ADSE

O desprezo pelos colégios privados deste governo é ridículo, medíocre e revelador de cabeças que nivelam tudo por baixo. É comédia, o teatro de revista da mediocridade nacional. Mas o desprezo deste governo pelos hospitais privados é mais grave, é outra coisa, é uma tragédia séria que nos custou milhares de vidas nesta pandemia.

Entre abril e o Natal, não tivemos uma onda covid, os hospitais do SNS não foram esmagados por doentes covid durante esse período. No entanto, tivemos durante este mesmíssimo período um excesso de mortalidade não covid impressionante. Porquê? Porque a ministra foi incapaz de transferir milhares de operações e milhões de consultas para o sector privado e para o sector social. Porque a pandemia apanhou Temido, Costa e toda a esquerda em contramão. Passaram cinco ou seis anos a dizer que os privados são péssimos e que as PPP são péssimas; isto apesar de os autarcas de esquerda servidos pelas PPP (Loures e Vila Franca) apreciarem sobremaneira as ditas PPP. Costa e Temido quiseram navegar na onda do “milagre português” e da “resiliência do SNS”, duas fraudes sem sentido, porque desde março que temos um excesso de mortalidade não covid revelador do fracasso absoluto da gestão deste governo. Quem o diz é Alexandre Lourenço, presidente da Associação de Administradores Hospitalares.

O problema aqui não é a sobrecarga de janeiro, covid e não covid. Não estou a falar de janeiro, um mês infernal. Estou a falar do período dramático e silenciado entre abril e o Natal. É importante falarmos disto por duas razões. Primeira: não podemos repetir esse silenciamento mediático, político e médico em 2021; quando esta vaga covid passar, os doentes não covid não podem permanecer esquecidos como em 2020. Segunda: alguém tem de ser politicamente responsável pelo excesso de mortalidade não covid, que é um embaraço para o país. Durante a campanha eleitoral, reparei que este tema é tabu para toda a esquerda. Matias e Ana Gomes diziam que não se podia falar deste tema, que devíamos pedir desculpa à ministra por salientar o assunto. Perdão? Então o excesso de mortalidade de Portugal em 2020 chegou a ter 75% de óbitos não covid antes do inverno, e não se pode falar do assunto? A esquerda inteira não quer falar do assunto porque não quer admitir que é necessário um acordo com os privados e com o sector social. Ou seja, Temido, Costa, parte do PS, o BE e o PCP quiseram montar uma bravata ideológica com a pandemia, quiseram mostrar que o SNS era suficiente e que não precisávamos do sector social e dos “privados” (esse vil inimigo interno) na frente covid e na frente não covid. O resultado está à vista: um excesso de mortalidade covid e não covid que nos humilha como país, que nos coloca no topo do excesso de mortalidade total desde março. A culpa não é só da ministra, é da ideologia geringonça que andou anos a diabolizar privados, misericórdias, PPP, até a ADSE. Mesmo em tempo de pandemia, a esquerda portuguesa ficou refém de ideologias do século passado. Não, não interessa se o serviço público é prestado num hospital privado ou estatal, o que interessa é que a cirurgia seja feita.

Agora, da mesma forma que recusou pedir ajuda aos privados portugueses, o governo português resiste ao pedido de ajuda europeu. Sobre isto há várias coisas a dizer. Primeira, é este o espírito europeu; a minha família de Coimbra acolheu três jovens austríacos a seguir à II Guerra Mundial numa campanha nacional e europeia liderada pela Igreja católica. Segunda, convém recusar o vírus do nacionalismo. Sentimo-nos envergonhados por pedir ajuda a outros países? Não é isso o tal nacionalismo que tanto criticamos nos populismos? O mal está feito, os erros foram cometidos ao longo de 2020, agora há que salvar vidas, covid e não covid.

Prof. Marcelo, esses 60% serviram para quê? 

José Manuel Fernandes, ao final do dia, duas vezes por semana.

Há horas em que sinto vergonha, outras puro nojo, muitas em que me revolto. A indignação deixo para as redes sociais. Mas já não me consola saber como são tantos e tantos os que lutam todos os dias tantas e tantas horas para que a tragédia que vivemos não seja ainda maior. Eles foram traídos, estão a ser traídos, assim como todos os que não se resignam, todos os que não se rendem à chantagem do “fizemos o que era possível”, “fizemos o nosso melhor”. É mentira, e mesmo que fosse verdade não chegava.

O país, o Governo, falharam, e não falharam em Dezembro, nem sequer começaram a falhar no Verão quando não preparam o Outono e o Inverno: começaram a falhar logo em Março. Por arrogância, cálculo político e falta de visão.

Nunca houve um “milagre português”: houve sorte e medo, um povo que se fechou em casa e um Governo que foi atrás. Criou-se um “gabinete de crise”? Não. O primeiro ministro rodeou-se de uma equipa de cientistas competentes? Não. Em vez disso inventou uma paródia chamada “reuniões do Infarmed”. Mobilizaram-se todos os recursos disponíveis? Não. A ministra da Saúde resistiu meses a fio a conversar com o sector privado, alimentando uma guerra estúpida e desgastante. Criaram-se mecanismos eficazes para informar a população? Não. A preocupação foi sempre a propaganda e mais depressa se escondia informação do que se promovia a transparência. Agiu-se com rapidez para acudir a uma economia obrigada a parar? Não. Todas as comparações internacionais indicam que os apoios que demos à economia e ao emprego se encontram entre os mais exíguos da Europa. Pior: mesmo os programas aprovados não foram cumpridos, acabamos de saber que o ministro das Finanças decidiu “poupar” em vez de ajudar a salvar um tecido empresarial em absoluto colapso.

Mas chega. A lista podia prosseguir, com as excepções e os maus exemplos, a desastrosa gestão dos transportes na Grande Lisboa, os surtos nos lares, os discursos contraditórios e a insuportável prosápia de um poder que não tolera a mínima crítica ou reparo mesmo quando tudo o que faz deve ser objecto de crítica severa.

O ponto a que chegámos não podia por isso ser mais penoso. O que vemos quando olhamos à volta é desolador.

De norte a sul já se percebeu que o bom português é o “chico esperto” que encontra forma de ludibriar as regras e levar a pica da vacina antes de chegar a sua vez. Um país enxameado de gente que só está onde está porque tem cartão partidário e que fez vida com muitos esquemas e a prestação de muitos “serviços”, naturalmente serviu-se como pôde e não achou isso estranho. “É só um caso cada mil”, diz o responsável pelo processo, Francisco Ramos, no seu tom sempre entre o sonso e o arrogante, o mesmo que até acha que esta “batota” só é imoral para os eleitores de André Ventura. O senhor, um apparatchik que serviu o PS em várias ocasiões – já foi secretário de Estado em cinco governos socialistas – tem feito e refeito o plano de vacinação e por isso é um dos responsáveis por Portugal estar entre os países mais atrasados da UE na primeira dose da vacina. Mesmo assim não se demite.

Aliás a ninguém parece pesar a consciência mesmo quando Portugal está há muitos dias no topo dos países com os piores números de mortes e infectados da Europa, nem quando os mortos se acumulam nos hospitais ao ponto de terem de ser construídas de emergência câmaras frigoríficas para guardar os corpos. O importante é que é essas imagens não apareçam nas televisões, isso sim é que é importante.

Face a este descalabro ainda dizem que estava tudo planeado e até que falar de falta de planeamento é “criminoso”. Que mais posso dizer? Foi já há vários meses que pedi a Marta Temido para deixar de fingir que “fomos exemplares”, que “fizemos o nosso melhor” ou que “o SNS estava preparado”, pois era tempo de deixar de viver na mentira. Como é óbvio não serviu de nada. Entrámos nessa ficção por Novembro adentro, depois por Dezembro adentro, já sabíamos da variante britânica quando deixámos as fronteiras abertas para o Natal enquanto outros as fechavam e depois, quando à nossa frente já se avistava o tsunami, o nosso primeiro-ministro, fleumaticamente, anunciava que tínhamos de esperar pela “reunião do Infarmed”, e a seguir à “reunião do Infarmed” anunciava que não havia consenso entre os especialistas sobre fechar ou não fechar as escolas.

Pois, falo mesmo do nosso primeiro ministro. Do “hábil” António Costa, agora o desnorteado António Costa. Cada semana que passa torna mais evidente que não é homem para as horas complicadas em que é preciso tomas decisões difíceis e impopulares. E rápidas. Entre duas opiniões contraditórias, hesita e adia, negoceia, procura o consenso, tira a bissetriz, sem entender que as meias-tintas raramente são a boa solução.

Rodeado por uma equipa ministerial de pesos-pluma, quase não tem em quem confiar. Mas também não é capaz de cortar a direito e remodelar um governo que não está à altura das circunstâncias — faz retoques na pintura promovendo gente dos gabinetes sem experiência de vida. Tudo em circuito fechado.

Como é possível manter ainda em funções o ministro da Educação depois de dizer que ele não disse o que ele tinha dito, e o próprio se ter vindo desdizer? Como é possível segurar a ministra da Solidariedade Social depois da hecatombe que tem acontecido nos lares e depois de tudo o que continua a não funcionar nos apoios sociais? Será que ainda não reparou que o pronto-socorro do ministro da Economia não chega para tudo? E que dizer da ministra da Justiça, irremediavelmente comprometida depois do caso do procurador europeu, mas que é apenas mais um caso a manchar um mandato onde a única preocupação parece ser assegurar que, da área da Justiça, não virão mais surpresas desagradáveis para os socialistas e os poderosos?

Isto sem esquecer, claro, o velho companheiro Eduardo Cabrita, amigo fiel de muitos anos, agora na Administração Interna e que pode ser um bom cão-de-fila para umas arengas parlamentares, mas que desde o caso Ihor Homeniuk perdeu autoridade para o que quer que seja. Sobra-lhe no tom da voz o que lhe falta da substância da razão, e isso é poucochinho.

Imagino que olhando de Belém para este cataclismo Marcelo comece a estar assustado. A verdade é que se comprometeu demasiado com o Governo, assumiu-se como parte nas decisões sobre a gestão da pandemia, imaginamos que terá evitado alguns erros, vimos como tento apagar alguns fogos, testemunhámos como foi parceiro em boa parte dos equívocos, dos erros de cálculo e na mistificação pública. Gostei por isso de vê-lo “muito irritado” quando não conseguiu que a DGS lhe desse uma instrução por escrito sobre o que devia fazer quando testou positivo e logo a seguir negativo – finalmente descia ao mundo do comum dos mortais que têm de viver no meio da confusão que é lidar com as informações contraditórias que se recebem dos serviços de saúde.

Só que Marcelo tem de decidir-se. A pandemia é a catástrofe que ninguém previu, mas a degradação das instituições e dos costumes já vinha de trás e o Presidente fora cúmplice nesse processo degenerativo, uma cedência aqui, um cálculo de oportunidade acolá, mas cúmplice sem margem para dúvidas.

Agora, forte com os 60% da sua reeleição, tem força para correr riscos políticos, tem força para tentar despertar os portugueses, tem força para em vez de perseguir ainda mais selfies, colocar o dedo nas feridas e abalar consciências. É o mínimo.

É que convém não ter ilusões. Talvez o número de infectados e de mortes comece a diminuir mais depressa do que preveem os modeladores, que de resto se enganam sempre, mas quando isso acontecer o que ficará para trás é um campo de ruínas. Na saúde e na economia. E quem continuará em São Bento é esta equipa de zombies arrogantes e claramente incompetentes que até é capaz de vir reclamar os louros por ter “vencido a pandemia”. Isto enquanto, com a mesma sofreguidão com que se lançou às vacinas, a turba multa prepara as garras para agarrar a bazuca.

Porque escrevo isto? Porque pelo que temos visto o crime compensa. Tem compensado, está à vista de todos, descaradamente.

Prof. Marcelo: por uma vez na vida, vai fazer alguma coisa para que deixe de compensar?

Portugal Socialista, in SOL https://sol.sapo.pt/artigo/722526/portugal-socialista

Não nos enganem mais, a situação é mesmo dramática, in OBSERVADOR https://observador.pt/programas/contra-corrente/nao-nos-enganem-mais-a-situacao-e-mesmo-dramatica/

A República a votos, in SOL https://sol.sapo.pt/artigo/721890/a-rep-blica-a-votos

O desmoronamento em curso 

A falta de previsão tem sido a imagem de marca do PS desde que tomou o poder graças ao golpe parlamentar de 2015. Chega sempre tarde e não deixa esperanças para o dia da eleição presidencial.

No dia em que o Governo decidiu permitir que os eleitores votassem antecipadamente, no domingo anterior ao das eleições presidenciais de 24 de Janeiro, não previu que haveria uma pequena multidão de cerca de 250 mil votantes antecipados em todo o país. Em Lisboa eram umas escassas dezenas de milhar de votantes, mas ainda estavam a “fazer bicha” à hora de as urnas encerrarem! Comprova-se, assim, que a falta de previsão tem sido, manifestamente, a imagem de marca do PS desde que tomou o poder graças ao golpe parlamentar de 2015. Chega sempre tarde e não deixa esperanças para o dia da eleição presidencial.

Antes mesmo da pandemia, o improviso, a falta de competência e a manipulação dos meios de comunicação já tinham caracterizado o comportamento do Governo perante os incêndios florestais de 2017 e repetiram-se durante a tragicomédia de Tancos, que se prolonga até hoje, assim como o caso Sócrates, sempre de modo a iludir as pessoas e a sacudir as responsabilidades do Governo com a protecção do PR. E assim sucessivamente perante casos com a dimensão do chamado “Novo Banco” e agora a TAP, ambos a financiar pelos contribuintes, como tantos outros buracos, até que a falta de rigor e de previsão económico-financeira desembocou de novo no aumento da dívida externa.

Perante o agravamento da pandemia para valores impensáveis, é manifesta a desorientação do Governo e dos seus aliados no Parlamento e na Presidência da República. Estes continuam a refugiar-se atrás da “bazuca” da UE, da qual já se fala há tempos, mas que, aparentemente, não virá tão cedo. O mesmo se diga das vacinas, que em breve viriam resolver de vez o assunto e chegaram a ser saudadas como o “fim da pandemia”, mas afinal escasseiam de tal modo que, desde o Natal até agora, a vacinação ficou-se por uma centena de milhar, correspondente a menos de 1% da população e a quem ainda será necessário administrar a segunda dose!

Entretanto, a pressão sobre os hospitais e os profissionais de saúde não cessa de aumentar, atingindo, neste momento, mais de cinco mil internamentos, dos quais 664 em cuidados intensivos. Este afluxo contínuo de novos casos, já classificado como o mais grave do mundo, está não só a paralisar o normal atendimento aos outros doentes graves como, segundo as últimas notícias, também já está a obrigar os profissionais de saúde a escolher quem salvar entre os internados em cuidados intensivos. A organização e o financiamento do SNS já há bastante tempo que funcionavam mal e, neste momento, foram ultrapassados pelos acontecimentos com os riscos que isso comporta para muitos dos doentes actuais e para o estado de saúde futuro da população.

Por fim, têm vindo a multiplicar-se, sem cessar, essas instituições de resposta ao envelhecimento cada vez mais acentuado da população, onde estão alojadas para cima de 300 mil pessoas – os chamados “lares de idosos”. Não é que isso não fosse já conhecido, mas agora, com a pandemia, as incapacidades técnicas e humanas dessas Instituições Privadas de Solidariedade Social geridas pelas Misericórdias tornaram-se evidentes apesar do financiamento estatal, sem falar do grande número de lares clandestinos tolerados pela Segurança Social. É nesses estabelecimentos que morre metade, ou mais, das vítimas da Covid-19!

O agravamento notório da pandemia, em simultâneo com a campanha eleitoral para a Presidência da República e o início da presidência do Conselho da UE, sinalizam o início do desmoronamento dessa pseudo-solução governamental iniciada pelo PS após as legislativas de 2015 – a tal “geringonça” –, que entretanto deixou manifestamente de funcionar como antes. Costa bem quis ter a maioria absoluta em 2019, mas, apesar da actual distorção eleitoral, não conseguiu e não encontrou substituição.

O PS perdeu-se entre a inútil confecção do Orçamento e a irrupção da pandemia. Não só gasta dinheiro e aumenta o défice, como afectou as uniões partidárias, como se viu nos Açores, onde a tentativa de reconstituir uma “geringonça local” sob o domínio do PS não funcionou na Região Autónoma. O soçobrar parlamentar do PSD e a virtual desaparição do CDS no Continente apenas indiciam mais dificuldades para o pequeno mundo dos partidos políticos, conforme se tem visto durante a campanha presidencial…

Independentemente do que acontecer em Belém, a perda simultânea de popularidade do PR e do PM impedi-los-á de se apoiarem um ao outro. Entretanto, a continuação da pandemia e o atraso da recuperação económica irão prolongar a recessão e desapontar a população em Portugal ainda mais do que no resto da Europa. A agonia política do PS deve-se não só à iminente catástrofe sanitária, mas também à debilidade económica do país. Esta, por sua vez, deriva da baixa produtividade resultante do estatismo, do corporativismo e, por fim, da pretensa “ideologia de esquerda” insuflada pelo PS, desde a burocracia à escola e à comunicação social!

O único homem com liberdade em Portugal

Acho bem que Mamadou Ba seja um homem com liberdade para citar Fanon. O que também acho, no entanto, é que Mamadou Ba não pode continuar a ser o único homem com liberdade em Portugal.

27 nov 2020, 00:268, in O Observador

Sempre tive curiosidade de conhecer um homem totalmente livre. Livre, não como é costume usar essa expressão hoje em dia, no sentido de uma pessoa independente, mas livre no sentido de isento de quaisquer constrangimentos, legais ou morais, na expressão das suas ideias e sentimentos. Um homem, enfim, com toda a liberdade para dizer o que lhe apetecer, sem recear consequências. Esta semana, encontrei esse homem. É Mamadou Ba, um antigo cidadão senegalês, agora com documentos portugueses. Percebi também porque é que disfruta de tanta liberdade. Esta semana, Mamadou disse que era preciso “matar o homem branco”. Apelo ao assassinato? Discurso de ódio, pelo menos? Não, nada disso. Uma multidão de voluntários precipitou-se logo a rodear o homem com uma defesa intransponível de muralhas, fossos e campos minados. Fomos, como nos competia, sujeitos às devidas lições: tratava-se de uma citação; tratava-se, acima de tudo, de uma metáfora. Citações e sobretudo metáforas não têm mal nenhum, a não ser na torva cabeça da “direita incivilizada”, de que felizmente o regime já obteve a lista com os nomes todos.

Não sei que mais admirar nos desculpadores de Mamadou, se a ignorância, se a má fé. Falemos da ignorância. Mamadou citava Frantz Fanon? Mas as palavras de Fanon nem no prefácio de Sartre a Os Danados da Terra tinham um sentido meramente simbólico. Fanon foi um amigo e influência de Holden Roberto, o líder da União dos Povos de Angola, que deve ter ouvido as opiniões de Fanon antes de este as expor em livro. Em 1961, seguindo as lições do seu mestre, Roberto decidiu iniciar a campanha para a independência de Angola matando os colonos brancos. Matando metaforicamente? Não, matando literalmente. À catanada. Em Angola, entre Março e Maio de 1961, aconteceu o maior massacre de população de origem europeia alguma vez cometido em África. Ao lado de cerca de 1000 brancos, caíram também, sob as catanas dos discípulos de Fanon, milhares de negros de etnias que, no norte de Angola, eram etnias erradas. Homens, mulheres e crianças – decapitados, mutilados, esventrados. Holden Roberto, o discípulo de Fanon, o amigo de Fanon, não percebeu o que Fanon lhe dizia? Não sabia o que era uma metáfora?

A metáfora já foi a desculpa de Julius Streicher, o maior propagandista do anti-semitismo na Alemanha nazi, durante o julgamento de Nuremberga. Entre 1923 e 1945, no seu jornal Der Sturmer, Streicher incitou incansavelmente à morte dos judeus, ao seu extermínio, ao seu desaparecimento. Mas em Nuremberga, em 1945, perante o Tribunal Militar Internacional, argumentou que tudo aquilo era linguagem simbólica, que de facto nunca concebera a morte literal dos judeus, mas apenas a sua emigração para um simpático Estado judaico, a criar algures num recanto agradável do mundo. Streicher não matara ninguém pessoalmente. Nem sequer estivera implicado na máquina do extermínio dirigida por Himmler, Heydrich e Eichmann. Mas o Tribunal de Nuremberga não considerou que as metáforas de Streicher tivessem sido inocentes: percebeu que, sem o ambiente criado por demagogos como Streicher, o extermínio das comunidades judaicas da Europa não teria sido possível. Os grandes crimes políticos requerem este estádio prévio da metáfora para serem executados, porque é nessa fase metafórica que as futuras vítimas são desumanizadas, transformadas em criminosos ou em simples peças de um sistema odiado, e portanto susceptíveis de serem eliminadas sem escrúpulos, em nome da defesa da comunidade ou do triunfo da justiça. O anti-semitismo nazi não tem comparação na sua enormidade. Mas o anti-colonialismo à moda de Fanon tem, com esse movimento de ódio, uma certa sintonia, neste sentido muito preciso: graças às metáforas de Streicher e de Fanon, aqueles que geriram as câmaras de gás ou que empunharam a catana não viram naquela mulher e naquela criança, sozinhas e indefesas, o que elas eram — apenas uma mulher e uma criança –, mas, porque eram judias ou brancas, simples espécimes de raças inimigas e sem direitos, e que era politicamente necessário e legítimo assassinar. Em Angola, em 1961, foi assim: 1000 portugueses – homens, mulheres e crianças – cortados à catana como colonos que mereciam morrer para o colonialismo acabar. A metáfora de Fanon, para eles, teve esse sentido sangrento.

Fanon concebeu a chamada relação colonial como uma simples relação de violência do colonizador sobre o colonizado. Justificou assim todas as violências dos colonizados sobre os colonizadores. No entanto, Fanon é ensinado acriticamente em cursos de ciências sociais das nossas universidades, com os seus incitamentos ao homicídio branqueados como metáforas inocentes. E ai de quem, como esta semana fez André Azevedo Alves, duvide dessas inocências. Foi imediatamente cercado pelos tambores de ódio da esquerda radical, toda muito convenientemente versada em leituras simbólicas de Fanon.

E a propósito, eis uma das razões pelas quais em Portugal só há extremismos à direita. De facto, como gracejou Pessoa, tudo é símbolo, tudo se pode interpretar como metáfora. Mas nem sempre com a mesma complacência. Mamadou Ba pretende “matar o homem branco”? Na realidade, deseja apenas reformar pacificamente um “sistema racista”. Mas eis um político da direita com um plano para reformar a Segurança Social. Também o que ele diz será interpretado como metáfora, mas neste sentido: na verdade, o que ele quer é privar violentamente os pobres de qualquer rendimento, e portanto exterminá-los. O Mamadou Ba que anseia por “matar o homem branco” é um cavalheiro culto e gentil que cita Fanon; o político de direita que pretende reformar a Segurança Social é um assassino bárbaro que conspira para assassinar os pobres. Tudo em nome das metáforas.

Ninguém tem o direito de esperar que a esquerda deixe de fazer isto. É o que lhe convém: inocentar os seus, e demonizar os outros. O que compete a uma direita democrática não é queixar-se e exigir à esquerda que abandone os seus critérios duplos: é não se deixar impressionar, pois se esses critérios funcionam, é apenas porque uma parte da própria direita, por medo ou conveniência, os adopta para distinguir, entre os seus, aqueles que têm direito ao título de “democratas” e os outros, que podem ser tratados como “fascistas”. A força do esquerdismo não vem da esquerda, mas da cobardia e do oportunismo da direita. E não, isto não é uma questão tribal, de equilíbrio entre clubes. É uma questão de pluralismo e de liberdade, porque liberdade e pluralismo não existem onde o debate está tão enviesado. Nunca chamarei a polícia, como é hábito fazer à esquerda, por causa do que alguém disser. Acho bem que Mamadou Ba seja um homem com liberdade para citar Fanon ou o que lhe apetecer. O que também acho, no entanto, é que Mamadou Ba não pode continuar a ser o único homem com liberdade em Portugal.

A retoma em K, in https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/a-retoma-em-k-653485

Até que a morte nos pare, in https://www.jn.pt/opiniao/pedro-ivo-carvalho/ate-que-a-morte-nos-pare-12962402.html

Antes e Depois ( As perigosas comparações) in https://sol.sapo.pt/artigo/713043/antes-e-depois-as-perigosas-comparacoes-

Ditadura Democrática, in https://sol.sapo.pt/artigo/712653/ditadura-democratica

A traição de Marcelo, in https://sol.sapo.pt/artigo/711911/a-traicao-de-marcelo

Ao estado a que isto chegou, in https://sol.sapo.pt/artigo/709427/ao-estado-a-que-isto-chegou

Ele não pára de surpreender…sempre pela negativa!, in https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/ele-nao-para-de-surpreender-sempre-pela-negativa-637784

Portugal país violento?, in https://ionline.sapo.pt/artigo/708899/-portugal-pais-violento?seccao=Opiniao_i

A necessidade da candidatura presidencial de Ana Gomes 

Tudo somado, temos dois candidatos. Uma candidata cosmopolita, corajosa e com um percurso de vida cujas consequências são visíveis no mundo. Temos outro candidato que nunca saiu do eixo Lapa-Cascais.

Findo o Verão, apesar de todas as incertezas desenhadas na linha do horizonte, as presidenciais de Janeiro de 2021 começam a mexer. No meio da disrupção da nossa vida colectiva trazida pelo vírus, agudizados por uma classe política ensimesmada – principalmente quando brinca às “crises políticas” –, momentos como as eleições são importantes faróis de normalidade numa sociedade em convulsão. Apesar de tudo, as regras do jogo continuam a funcionar. Seremos novamente chamados a eleger o Presidente da República dentro de uns meses.

Ana Gomes apresenta amanhã a sua candidatura à Presidência da República. Creio que é de louvar o esforço cívico e político que Ana Gomes faz ao prestar novamente um serviço ao seu país, num momento difícil em que corríamos o risco de ter uma corrida eleitoral disputada por dois populistas, Marcelo Rebelo de Sousa e André Ventura.

Ana Gomes é tudo aquilo que Marcelo Rebelo de Sousa, o vencedor pré-anunciado, não é. Isto, claro, para quem tem a felicidade de ver o país para além do ângulo debitado pelo Expresso. Em primeiro lugar, é uma cosmopolita, com vasta experiência internacional, acumulada em cargos diplomáticos em Londres e Tóquio e, durante mais de quinze anos, enquanto deputada ao Parlamento Europeu em Bruxelas. Durante esse tempo, o Professor Marcelo espalhava o seu “génio” entre Cascais, a Faculdade de Direito, o comentário político na TSF – no qual dava notas aos políticos — e, mais tarde, a TVI.

Em segundo lugar, Ana Gomes é uma mulher corajosa e com espinha vertebral. Tem um conjunto de princípios de que não abdica, nomeadamente, a lisura na coisa pública e o combate à corrupção. Quem não se lembra quando Ana Gomes chamou ladra a Isabel dos Santos em directo na SIC Notícias, dizendo, de resto, aquilo que o senso comum de qualquer português medianamente informado sabe? Ou, por exemplo, o facto de ter sido a única militante no Congresso do PS, em 2018, que assumiu a necessidade de o partido reconhecer os erros do passado? Não concordo com todas as posições de Ana Gomes, nomeadamente em matéria europeia. No entanto, gabo-lhe a coragem de enunciar as suas posições publicamente e com clareza. Alguém conhece as posições de Marcelo Rebelo de Sousa sobre o que quer que seja? Apesar de ser uma presença mediática há décadas, o “Professor”, persona pública criada no seio da mais fina elite mas que consegue o milagre de fazer o povo acreditar que é um dos seus, não tem coragem para afirmar as suas posições sobre nada. É um caso clássico do dictum atribuído a Groucho Marx: estas são as minhas posições, se não gostarem tenho outras.

Em terceiro lugar, Ana Gomes chega a esta corrida presidencial com feitos na vida pública dos quais se pode orgulhar. Naturalmente, o feito maior foi o seu trabalho incansável enquanto embaixadora de Portugal em Jacarta durante a luta de Timor Leste pela sua independência. Creio que não é um feito menor ter ajudado um país a libertar-se do jugo de um ocupante que, há décadas, o oprimia, tornando-se independente. Pelas minhas contas, os feitos públicos de Marcelo Rebelo de Sousa até ser eleito Presidente resumem-se a uma mão cheia de nada, para além de um conjunto de histórias (ou estórias?) de anedotário. Mergulhou no Tejo e conduziu táxis, numa antecipação do estilo popularucho pelo qual viria a ser conhecido décadas mais tarde, mas perdeu a corrida à Câmara de Lisboa. Foi líder do PSD e da oposição durante o consulado guterrista, conseguindo bloquear a despenalização do aborto com um referendo inventado à última hora. Todavia, não chegou sequer a disputar as eleições legislativas de 1999. Numa palavra, em todos os momentos maiores, falhou.

Tudo somado, temos dois candidatos. Uma candidata cosmopolita, corajosa e com um percurso de vida cujas consequências são visíveis no mundo. Temos outro candidato que nunca saiu do eixo Lapa-Cascais, apesar de toda a mise-en-scène sobre Celorico (uma delícia), com pouca coragem, e cujos feitos na vida pública antes de ser eleito Presidente se resumem a ter sido deputado à Constituinte e ministro (durante um ano) no tempo de Balsemão.

Poder-se-ia dizer que Marcelo Rebelo de Sousa tem sido um bom Presidente e que merece ser reconduzido na Presidência. À excepção do momento Pedrógão, no qual se elevou à dignidade do cargo, a sua presidência é simplesmente triste. Isto, claro, se pensarmos que ser Presidente da República é mais do que ser mirone num incidente com um elétrico da Carris, tirar selfies com metade do país qual cantor de música ligeira, fazer comentário sobre assuntos políticos em tronco nu na praia recorrentemente, ou até ir à pré-inauguração de uma Padaria Portuguesa.

Naturalmente, dado o perfil dos dois candidatos, é óbvio qual a preferência do Dr. Costa. Para além de partilharem o mesmo millieu lisboeta, Costa e Marcelo partilham as mesmas características: paroquiais, pouco arrojados, e com feitos curtos na vida. Isto assumindo, claro, que a vida é algo mais do que as sinecuras arranjadas via partido político ou de ligações familiares. Acima de tudo, Costa e Marcelo querem fazer tudo para manter o status quo político, económico e social, que nos trouxe a uma estagnação económica nos últimos vinte anos. Se não fosse por mais nada, quebrar o status quo é o motivo pelo qual acho a candidatura de Ana Gomes imprescindível. Se assim não for, corremos o risco de, dentro de uns anos, vermos o sistema ser quebrado por pessoas e partidos muito pouco recomendáveis.

Por Jorge Fernandes, in Observador

Sócrates sonhou e Costa realizou

António Costa tem vindo a realizar quase todos os sonhos de José Sócrates. Afinal, as suas linhas programática e de ação são idênticas. Não são gémeos siameses, mas…

José Sócrates teve vários sonhos. Alguns com objetivos bastante positivos, como o plano tecnológico e o investimento na banda larga, o Simplex ou a aposta nas energias renováveis (sem olhar aos custos). Outros sonhos, viraram pesadelos para os portugueses com custos dantescos para o país: obras megalómanas em período de crise como o TGV ou o reforço do recurso a Parcerias Público-Privadas para construir autoestradas com contratos ruinosos para as futuras gerações, a Festa da Parque Escolar ou ainda as rendas excessivas do sector elétrico. Além destas duas realidades há uma terceira, à partida mais imaterial, com reflexos muito negativos na economia, mas sobretudo na sociedade e na independência das instituições, dos reguladores, mas também de alguns pilares da nossa democracia. É precisamente nesta terceira categoria que António Costa conseguiu aquilo que Sócrates, felizmente, não conseguiu realizar.

Sócrates sonhou controlar a imprensa, foi acusado de atentar contra o Estado de Direito, conseguiu remover vozes incómodas de algumas televisões, interferiu na aquisição de grupos de comunicação social e noutros, como foi o caso da TVI, tentou por tudo garantir a sua aquisição por gente amiga.

Sócrates tentou “controlar a democracia”, António Costa conseguiu.

A imprensa irritava Sócrates, o animal feroz não podia ser incomodado. António Costa também se irrita mas disfarça melhor, apenas o faz em off.

António Costa, com um discurso alegadamente assente numa visão progressista e de grande respeito pela pluralidade e valores de Abril, já ultrapassado o Estado de Emergência mantém o condicionamento das conferências de imprensa do Conselho de Ministros, da DGS e até dos ministros. Ora escolhem os jornalistas para algumas conferências de imprensa, ora limitam o número de perguntas e de pessoas com acesso. No Governo do simplex parece impossível que não exista um meio de transmissão online que permita o acesso a mais gente. E quase tudo fica caladinho sem direito a indignação.

Se Sócrates teve a fama e o proveito de querer interferir na economia privada e nas decisões das grandes empresas, pagando ele e o país uma grande fatura por isso, António Costa já o conseguiu. Os seus bons amigos participam ativamente em algumas decisões estratégicas dando conforto ao Governo. Foi assim com a TAP, com os lesados do BES, agora com TVI e provavelmente em tantas outras ocasiões que o público em geral desconhece. Os custos da reversão mentirosa do capital da TAP feita por Costa, Pedro Marques e Lacerda Machado ficaram bem visíveis muito recentemente durante o processo que levou à injeção de cerca de mil milhões de euros por parte do Estado e dos contribuintes.

A “liberdade” de António Costa em matérias que dizem respeito ao regular funcionamento das instituições é gritante e descarada, atente-se por exemplo, o luxo de ter como representante de Portugal no Conselho Europeu um conhecido lobista, Vitor Escária, o ex-mega assessor de Sócrates, sem qualquer contrato com o Estado, como já tinha feito com Lacerda Machado. É tudo à vontadinha, sem transparência e como novos donos disto tudo.

Se durante o governo PSD/CDS se assistiu a uma desgovernamentalização das empresas, hoje fica claro que quem quer fazer alguma coisa em Portugal tem que voltar a ter o apoio político do Governo, a simpatia do primeiro-ministro e um alinhamento com as narrativas do seu Governo. Quem não vai ao beija-mão está tramado.

Ao olharmos para as restantes instituições vimos as diversas tentativas de limitação da ação da daquelas que deviam ser independentes. Recordemos as críticas e ameaças ao Tribunal de Contas, as tentativas de alterar as funções do Banco de Portugal reforçando o controlo do Governo, regras essas que não foram alteradas, mas que com a nomeação de Centeno o objetivo fica salvaguardado, ou o estrangulamento dos Reguladores Independentes cujas receitas próprias foram cativadas pelo Governo limitando assim a sua ação e sua autonomia. Se estes também foram sonhos algo frustrados de Sócrates e que Costa procurou concretizar, também ao nível das Ordens Profissionais a tentação é recorrente. Foi há dois anos com a perseguição à Ordem dos Enfermeiros e é agora a constante afronta aos Médicos e à sua Ordem sempre que perturbam a narrativa oficial do Governo socialista. A liberdade e autonomia das instituições está muito limitada.

Os partidos de extrema-esquerda, de Abril, fingem ser oposição e tais guardiões da liberdade e da democracia, mas fazem apenas uma oposição formal. Sempre que for preciso lá estarão a apoiar, a calar e a consentir.

Nem Sócrates acreditava ser possível chegar tão longe. Sócrates sonha, Costa realiza e os portugueses safam-se? A claustrofobia democrática, como um dia de lhe chamou Paulo Rangel, está de volta, mas desta vez em “pezinhos de lã”.

Por Duarte Marques, in Expresso

https://expresso.pt/blogues/blogue_sem_cerimonia/2020-09-08-Socrates-sonhou-e-Costa-realizou

Os intolerantes do Governo, in https://sol.sapo.pt/artigo/706711/os-intolerantes-do-regime

O Governo e os drones que nunca mais voam, in https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/o-governo-e-os-drones-que-nunca-mais-voam-624011

E depois do Lay-off?, in https://expresso.pt/blogues/bloguet_economia/blogue_econ_diogo_agostinho/2020-08-03-E-depois-do-lay-off-

O Regresso da Censura, in https://sol.sapo.pt/artigo/704325/o-regresso-da-censura

Somos tão estúpidos, in https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/somos-tao-estupidos-afinal-e-facil-616676

O povo merece a arrogância do PS

O interessante é perceber que o dr. Costa manda no PS, o PS manda no Estado e, é sabido, o Estado somos nós, que andamos a reboque de uma quadrilha com planos de dominação absoluta.

Este ano, por razões que não vêm ao caso, tenho passado boa parte do meu tempo numa cidade portuguesa que não aquela em que nasci, cresci, vivi e, parcialmente, ainda vivo. A minha cidade sempre foi socialista, ou seja, lá os residentes votam no PS para a autarquia e para o Parlamento. O PS distribui empregos, habitações “sociais” e demais benesses. O PS influencia os negócios particulares, os quais, se valerem a pena, não acontecem à revelia dos caciques locais. O PS é a rede inevitável a que vão parar as ambições, as ilusões e as esperanças de promoção social. Etc. É assim há 45 anos.

Na outra cidade de que falo não era assim. Vista ao longe, como eu a via, a cidade não parecia coutada de um partido. Além de um triunfo do CDS, o PSD vencia a maioria das eleições, o PS ganhava as restantes. Hoje, que estou aqui com frequência, descubro dia após dia que o PS controla a câmara, as freguesias, as escolas, as associações, as obras, as igrejas, o comércio, os semáforos, a “cultura”, a horticultura e por aí fora. Não é comigo. Graças a Deus, e a bem da higiene, o meu contacto com essa realidade limita-se aos testemunhos, indignados ou resignados, de interpostas pessoas. Através destas, vou conhecendo a existência de criaturinhas medonhas, sem escrúpulos nem letras nem vergonha, movidas exclusivamente pela ânsia de agradar ao partido e, no processo, realizar sonhos ridículos. É um universo repulsivo, repleto de boçalidade e prepotência, de ignorância e desonestidade, de vénias e humilhações. E se é um universo pequenino, não acho excessivo imaginar que constitui amostra razoável do país. Um país onde o PS está próximo de tomar conta de tudo.

Exemplos são inúmeros. Dou um. Esta semana, acabaram as reuniões periódicas no Infarmed. Porquê? Porque o dr. Costa, que na penúltima reunião se viu desautorizado pelos factos, o decidiu. Na altura, enxovalhou a ministra da Saúde (que agradeceu e merece o enxovalho) e bateu com a porta. Agora, terminou sumária e arbitrariamente com uma fonte perturbadora da propaganda acerca da Covid.

Não vale a pena comentar o carácter e a educação do dr. Costa, ambos nulos. O interessante é notar o puro despotismo. O interessante é perceber que o dr. Costa manda no PS, o PS manda no Estado e, é sabido, o Estado somos nós, que andamos a reboque de uma quadrilha com planos, em acelerado curso, de dominação absoluta. Quase sem oposição partidária, contraponto institucional, escrutínio jornalístico e a um passo de abolir qualquer dissensão pública, o dr. Costa e seus comparsas subjugaram-nos aos respectivos desígnios. É a concretização da política do quero, posso e mando, o chavão do PCP que os comunistas deixaram de usar a partir do momento em que se juntaram ao assalto. Escuso de referir a corrupção, o compadrio e os defeitos endémicos que hoje se exibem à luz do dia. Quando o autarca de uma capital resolve pintar o chão de cores bonitas e não é imediatamente internado, isto já não se assemelha em nada a uma democracia. As ditaduras começam pela trafulhice, evoluem com a arrogância e consagram-se na demência.

Com os subornos certos aos pelintras certos, nos partidos, nos “media” e no que calha, é claríssimo que o PS conquistou, no sentido bélico, os portugueses. A culpa é do PS? Lamento, mas a culpa é dos portugueses. Por muito que apreciassem o método, os socialistas não apontam uma pistola a ninguém para obrigar a apoiá-los nas sondagens, a tolerar asfixias fiscais, a aplaudir planeamentos leninistas, a subscrever a censura das opiniões, a rir “com” e não “de” palhaços, a respeitar as ordens de “autoridades” meramente grotescas, a admitir a transformação da vida em comum no quintal de um bando de matarruanos. O poder ilimitado do PS advém da ilimitada propensão dos portugueses para a submissão. E quanto maior o poder, maior a submissão, que é voluntária e não é particularmente incómoda. É preciso imaginar os portugueses felizes, ou no mínimo contentinhos.

Recentemente, perguntaram-me se eu via maneira de a “situação” mudar. Respondi que sim: a miséria. A descida do país a uma miséria tão avassaladora que subverta os fundamentos do que somos e nos atire para o desespero sem regras. Acrescentei que, não sendo um cenário improvável, não é um cenário desejável – mesmo que para varrer com o PS. A alternativa, enquanto houver dinheiro alemão para distribuir e impostos para pilhar, é o domínio do PS perpetuar-se. E crescer. Convém não ignorar o efeito avalanche: à medida que a bola de neve engorda, mais neve se junta ao todo. Os portugueses, dependentes e infantis, são os flocos de neve desta história, ávidos por se associarem aos que estão por cima – por cima deles, evidentemente. Está-nos na pele, e sai-nos do lombo.

Entre o totalitarismo e o caos, o destino pátrio é incerto e não se recomenda. A única certeza é a de que a democracia tem os dias contados. Era humilde, esfarrapada, coxa e burlesca, coitadinha. Mas era a nossa democracia, de qualquer modo preferível a três quartos dos regimes em vigor na Terra. O que virá, e está a instalar-se a cada momento, será bastante pior. Uma série deliberada e fortuita de circunstâncias favoreceu o casamento perfeito da vocação dos socialistas para sentirem donos da ralé com a vocação da ralé em servir. Uns 85% das intenções de voto vão para o PS e para as forças “colaboracionistas”. É pena que nas próximas “legislativas”, doravante um ritual dispensável, o PS sozinho não atinja essa marca: ao menos expunha-se a farsa. Entretanto, o PS vai estrangular-nos até ao último cêntimo, e pisar-nos até ao último assomo de humanidade. O PS não possui consideração nenhuma pelos portugueses que, por acção ou omissão, legitimam o PS. Eu também não.

Ignorar erros e procurar bodes expiatórios e cobardia, in SOL https://sol.sapo.pt/artigo/702213/ignorar-erros-e-procurar-bodes-expiatorios-e-cobardia

Os cobardes do regime, in SOL https://sol.sapo.pt/artigo/702361/os-cobardes-do-regime

Racismo como pretexto, in SOL https://sol.sapo.pt/artigo/701078/o-racismo-como-pretexto

Para salvar uma árvore

Éirónico: Marcelo, hipocondríaco, perdeu o controlo da narrativa hipocondríaca e securitária que nos apascenta. O Presidente e a sua marquise executiva, Antónia Costa, estão a ser criticados por terem sido demasiado audazes nos sinais de desconfinamento. Ora ainda bem que Marcelo deu esses sinais. Ele sabe algo que a narrativa do medo esquece desde o início: a quarentena pode destruir e matar mais do que o vírus.

O nosso problema não é o número de infetados. Esse campeonato, jogado ao nível europeu entre países, é irracional e, mais uma vez, anticientífico. Os virologistas como Pedro Simas não se cansam de dizer a mesma coisa desde o início: ter o vírus SARS CoV-2 não determina o desenvolvimento da doença covid-19; aliás, a esmagadora maioria não desenvolve. O nosso problema são os lares de idosos. Uma falha que partilhamos com todos os estados, desde Nova Iorque até à Suécia. O Ocidente mostrou-se incapaz de proteger os lares dos mais frágeis. É porventura a grande reflexão a fazer no pós-covid: é imoral continuarmos a arrumar a velhice em armazéns de seres humanos.

Por outro lado, o problema de “Lisboa” é, na verdade, o problema de Loures ou Amadora. Nada tem que ver com festas de jovens pós desconfinamento. Nestas regiões mais pobres, as pessoas nunca deixaram de trabalhar, nunca. As que não caíram no desemprego imediato continuaram a trabalhar. Sei do que falo. Morei a poucos metros do Hospital Beatriz Ângelo, o novo epicentro. A narrativa destas pessoas foi sempre o risco calculado do #sairdecasa. Como diz, e bem, o presidente da câmara de Loures, entre o preço instantâneo do confinamento (mais miséria, fome ou a humilhação de pedir comida) e o hipotético preço do vírus, estas pessoas escolheram e escolhem enfrentar o vírus. Uma pobreza ainda mais profunda é o seu inimigo. Para o burguês da cidade, o vírus é a sua primeira e única ameaça existencial. Para o pobre do subúrbio, o vírus é só mais uma ameaça. Percebem a diferença?

Julgo ainda que boa parte do fanatismo do #ficaremcasa vem de pessoas que não ainda não se deram ao trabalho de observar a destruição social que já está entre nós. Só para terem uma noção, deixo aqui um número divulgado pelo Banco Alimentar do Porto: recebia 30 a 40 pedidos de ajuda por ano, agora recebe 60 por dia. A pobreza mata de forma súbita e ao longo do tempo. A pobreza é o maior indutor de doenças físicas e mentais.

Um #ficaremcasa tão profundo e desproporcionado já é a causa de uma longa lista de destruição política (fim da sacralidade de Schengen; a destruição de partidos, olhe-se o PSD; ataques à liberdade; clima de delação na sociedade), de destruição social (desemprego como nunca se viu; fome até na classe média; a ruína do percurso escolar dos mais pobres), e até de destruição médica.

O que mais me incomoda na arrogância moral do medo e da hipocondria é a presunção de que o #ficaremcasa não causa mortes. Causa, sim. Causa tantos ou mais mortos do que a covid. Estou desconfiado que causa mais. O homicídio subiu em número e crueldade. Os problemas psiquiátricos dispararam (o suicídio é uma causa de morte superior ao homicídio). Há um excesso de mortalidade que só é explicável pela morte de outras doenças crónicas não atendidas. Estes mortos não contam? Para salvar uma árvore (o número de óbitos por covid), a sociedade atirou uma bomba de destruição massiva sobre toda a floresta; o radicalismo do #ficaremcasa é como uma quimioterapia antiga e desajeitada: mata por completo a vida à volta do foco da doença; destrói a doença matando a vida. Para quê? Só para entrarmos no patético campeonato da comparação covídica entre países? Mas a saúde e a vida só têm a covid-19 como lente de observação? Os outros problemas desapareceram por artes mágicas?

Os efeitos destruidores do #ficaremcasa demorarão anos e anos a serem reparados, e muitos nunca serão reparados, a começar nos milhões de pobres do terceiro mundo que já estão a morrer à fome por causa deste #ficaremcasa tão burguês e tão ocidental. Mas, claro, lá para o ano, os fanáticos do #ficaremcasa vão fazer outra campanha, um #liveaid, para ajudar os pobres do terceiro mundo. É assim o nosso mundo: de emoção primária em emoção primária.

in, jornal expresso, por Henrique Raposo

Ódio Racial, in Sol https://sol.sapo.pt/artigo/700333/odio-racial

Marcelo, Costa e Medina: três saloios entram num bar

O que se passou esta quarta-feira foi aberrante. Esteve ao nível da caricatura, aliás, esteve ao nível da anedota. Espero que os humoristas imortalizem este momento ridículo de Medina, Costa e Marcelo.

Há em Portugal uma fome só equiparável ao tempo em que os nossos pais eram pequenos, mas Presidente, primeiro-ministro e o alcaide de Lisboa abrem o telejornal para dizer que vem aí o circo. Sim, temos de nos rir para não chorarmos com o provincianismo de quem nos governa.

Estamos a viver uma crise sem precedentes e que não era inevitável. A crise era inevitável, esta escala era evitável se a sociedade e o Estado não tivessem entrado em pânico. E, curiosamente, ao contrário do que aconteceu durante a troika, o foco da narrativa ainda não está na crise económica. Mas vou dar-vos só um número: o Banco Alimentar do Porto recebia 30 a 40 pedidos individuais por ano; agora recebe 60 por dia. Fábricas como a Super Bock estão a despedir, lojas não estão a abrir, as exportações caíram a pique e, se os outros países também seguirem o #comprenacional, continuarão baixas. Mas, no meio desta crise tremenda, Marcelo, Medina e Costa abrem os telejornais para anunciar ao povo sem pão que vem aí o circo, que Lisboa vai acolher os jogos finais da Champions. “É o que os portugueses merecem”! Como assim?

A cena demonstra um provincianismo deslumbrado com qualquer migalha mediática dada pela “Europa”. Pior: é um provincianismo sem noção. Isto é um marketing político desesperado e desfocado em relação à crise económica e desfocado em relação às tais regras do covid: então uma festa de cem pessoas da rapaziada de Lagos é tratada como uma organização criminosa, mas um evento que atrairá inevitavelmente alguns milhares de visitantes já é bom? Qual é o critério? O critério do desconfinamento é a presença ou o gosto pessoal de Medina, Costa e Marcelo, os três defensores do alegado milagre português na luta contra a covid?

Mas qual milagre? Diabéticos amputados. Doentes oncológicos por tratar. Futuras doenças oncológicas por diagnosticar. Excesso de mortalidade não explicada pela covid. Aumento de 30% dos homicídios. Velhos abandonados. Suicídios. Senilidade galopante. Depressões. Ataques às liberdades. A mentalidade da fronteira fechada. A fome que não chega à escala neorrealista por causa do Banco Alimentar. A destruição de uma geração de alunos pobres. É este o “milagre português” que Marcelo, Medina e Costa tentam esconder com este anúncio tão provinciano, o circo em Lisboa. Espero que a UEFA traga o pão. Por Henrique Raposo, in Expresso

A extrema esquerda saiu à rua, in Jornal i https://ionline.sapo.pt/artigo/699802/-a-extrema-esquerda-saiu-a-rua

Uma história de duas pessoas, in Sapo Opinião https://eco.sapo.pt/opiniao/uma-historia-de-duas-pessoas/

O Ronaldo que, afinal é o Nelinho, in Jornal Económico https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/o-ronaldo-que-afinal-e-o-nelinho-599612

Costa e os Ciganos, in Semanário SOL https://sol.sapo.pt/artigo/697311/costa-e-os-ciganos

Mais um motivo para nunca confiar em socialistas, in Observador https://observador.pt/programas/contra-corrente/mais-um-motivo-para-nunca-confiar-em-socialistas

Ideias feitas – façam de conta de que não se passou nada, in Observador https://observador.pt/programas/ideias-feitas/facam-de-conta-de-que-nao-se-passou-nada-2/

Outra encenação de António Costa, in Semanário Sol https://sol.sapo.pt/artigo/697102/outra-encenacao-de-antonio-costa

Avante para Fátima, in semanário SOL https://sol.sapo.pt/artigo/696346/avante-para-fatima

Os filhos da mãe e os filhos de Lenine, in SOL https://sol.sapo.pt/artigo/695352/os-filhos-da-mae-e-os-filhos-de-lenine

Uma imagem repugnante, in jornal CM https://www.cmjornal.pt/opiniao/detalhe/uma-imagem-repugnante?ref=HP_BlocoOpini%C3%A3o

O estado do sítio, in semanário Sol https://sol.sapo.pt/artigo/695070/o-estado-do-sitio-

Há boas notícias, in semanário Sol https://sol.sapo.pt/artigo/695096/ha-boas-noticias

EcoVid20 O caos na economia viral, in semanário Sol https://sol.sapo.pt/artigo/695120/ecovid20-o-caos-economico-viral-de-2020

Burocratas, in CM Jornal https://www.cmjornal.pt/opiniao/editoriais/detalhe/20200502-0038-burocratas?ref=HP_BlocoOpini%C3%A3o

Emergência e Calamidade, in CM Jornal https://www.cmjornal.pt/opiniao/colunistas/miguel-alexandre-ganhao/detalhe/emergencia-e-calamidade?ref=HP_BlocoOpini%C3%A3o

A espada que ameaça a nossa cabeça, in Visão https://visao.sapo.pt/opiniao/ponto-de-vista/covidiario/2020-05-01-a-espada-que-ameaca-a-nossa-cabeca/

De calamidade em calamidade, https://observador.pt/opiniao/de-calamidade-em-calamidade/

Fretes na TAP custam 21 milhões, in CM Jornal https://www.cmjornal.pt/opiniao/colunistas/miguel-alexandre-ganhao/detalhe/fretes-na-tap-custam-21-milhoes?ref=HP_BlocoOpini%C3%A3o

Cuspindo nas estatísticas, dois jornalistas, do ‘The New York Times’ e do ‘The Guardian’, inventaram um ‘milagre’ português na coronacrisis; Marcelo, com imprudência, e o governo, manhoso, pegaram na mentira para propaganda das suas capacidades de liderança. As estatísticas mundiais mostram Portugal a meio da tabela, mas os media não indicam por norma os números de infectados e de óbitos por milhão. ‘Milagre’, portanto.

O programa de desconfinamento é uma amálgama de medidas contraditórias entre si, ditada mais pelo interesse de retoma das actividades do que por razões sanitárias, e marcada por prepotência sem suporte legal (mas o Tribunal Constitucional, tão activo na crise anterior, está nesta em coma profundo). O governo, que previa contágio só fora das fronteiras, mandava abraçar velhinhos nos lares e achava as máscaras um disparate, carrega agora em medidas excessivas, não para salvar o povo, mas para salvar políticos, parafraseando Luciano Amaral no CM. Todavia, a SIC, órgão central do governo, considerou o longo discurso de Costa como o melhor desde que D. Afonso Henriques gritou “Por Santiago!” antes da batalha de Ourique. Como na cerimónia do 25 de Abril, o Estado criou excepção para as elites, desta vez para a cúria burocrática da CGTP, que, ao contrário de todos nós, os outros, teve autorização para manifestar-se no 1º de Maio em 23 cidades e para os seus burocratas atravessarem concelhos. Não foi o Dia do Trabalhador, mas o dia da CGTP e seus privilegiados: as manifestações envolveram ‘apenas quadros sindicais’.

O governo aproveita a crise em benefício próprio. O ‘Expresso’ diz que já nos metralhou com 83 entrevistas de ministros. A procissão vai no adro.

Costa não perde uma para se armar em Churchill, mas não consta que o primeiro-ministro inglês deixasse a direcção da guerra para falar cinco vezes por dia aos media.

O descontrolo proporcionado pela pandemia vai soltando os impulsos autoritários do PS. Esses afloramentos já existiam com frequência, em declarações de dirigentes como Costa, Pedro Nuno Santos ou A. Catarina Mendes. A confusão entre Estado, governo e partido aumenta, com a complacência de Marcelo e da oposição. Ontem, ” Proteção Civil sugeriu no Facebook que os portugueses ouvissem o primeiro-ministro através do canal do Grupo Parlamentar do PS”, informou o JN. O Instituto N. de Estatística mudou regras a meio do jogo e passou os novos desempregados a ‘inactivos’. Em mais um ‘milagre português’, o desemprego baixou na secretaria.

Entretanto, meio milhão recorre à caridade de banco alimentares, instituições privadas e concelhias para comer.

Estado Policial, in https://sol.sapo.pt/artigo/694968/estado-policial

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https://sol.sapo.pt/artigo/691684/a-caminho-da-catastrofe

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A pandemia que o governo não deixa ver, in Observador https://observador.pt/opiniao/a-pandemia-que-o-governo-nao-deixa-ver/

Visão factual, in Observador https://observador.pt/opiniao/visao-factual-epidemiologica-portugal-e-um-dos-paises-mais-perigosos-do-mundo-na-covid-19/

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