O orçamento Frankenstein é o preço que Costa está a pagar pela sua arrogância de seis anos.

Lendo, ouvindo e vendo os media, fica-se com a impressão que o governo anda no Orçamento como diz o ditado chinês, a tentar matar cinco pulgas com os cinco dedos da mão. Tarefa impossível. O Orçamento minoritário, com as pressões PC, BE e PAN, vai de geringonça a desengonço, monstro de Frankenstein, feito de bocados de corpos alheios: fica em condições de passar! É a isto que Costa, Marcelo e Marques Mendes chamam política ‘racional’. Para eles, um partido votar contra o Orçamento alheio, que não aprecia, é ser ‘irracional’. A este ponto chegou a ‘racionalidade’ da demagogia.

O Orçamento Frankenstein é o preço que Costa está a pagar pela sua arrogância de seis anos, que esta semana tentou iludir ao prometer, ele!, ser humilde (durante oito dias, pela certa!). Poderia ter o apoio do PSD de Rio, mas foi tão arrogante que, no passado, disse “jámé” a essa possibilidade. Ao fechar essa porta, vê-se obrigado a escancarar portas, portadas e janelas do Orçamento Frankenstein aos camaradas de desengonço, em especial a porta da despensa, onde guardava uns trocos para acorrer a alguma aflição. Adia a aflição financeira, fica com a aflição política, que o levou a aprovar medidas sem sequer informar, como devia, a Concertação Social. Toca de pedir desculpas de mau pagador. Horas antes, o ministro das Finanças chamou os media, para lhes vender a medida do desconto nos combustíveis para as míticas ‘famílias’, que só nesta altura do ano aparecem no discurso político. Leão parecia à porta da loja anunciando saldos ou ‘rebajas’ — “aproveitem! É só até Março!” — no preço da gasolina, tudo menos baixar o imposto dos combustíveis, o tal que chega aos 60% por litro. A ‘rebaja’ não seria desconto imediato, mas mais do tipo desconto em cartão, para quem se desse ao trabalho de tratar do assunto.

Entretanto, Marcelo está tão nas mãos do governo que é Costa quem parece presidente da República e ele, coitado, faz figura de perpétuo compère comentador político aprovador de tudo o que Costa faz. Vamos vendo nos ecrãs este teatrinho cómico, que eles fingem ser drama, como se o processo democrático fosse um drama.

Temos sido um país sem presidente da República, sem o maior partido da oposição e com um governo minoritário que assalta todos os poderes em todas áreas e em todas as instituições. A situação é bizarra, mas fingem todos que não é, e lá vamos pagando e rindo. Com o Orçamento nota-se a bizarria, porque pode fazer cair o governo. Daí Costa ter de fingir humildade por uns dias. Mas, passando o Orçamento, voltará o mesmo, em pior. O monstro de Frankenstein também deu para o torto.

À mulher de César não basta ser desonesta
ARTP reinventou um famoso provérbio. Ficou assim: à mulher de César não basta ser desonesta, deve também parecer desonesta. O ‘Sexta às 9’ noticiou as sabidas suspeitas de, com o filho, Florêncio Almeida, da Antral, lavar ex-milhões do aldrabão Rendeiro; Almeida recusou falar ao programa, alegando problemas de coração. Três dias depois, foi ao ‘Bom Dia Portugal’, pois fez ‘combinação’ com o ‘jornalista’ coordenador do programa: zero perguntas sobre as negociatas. Zero, sim, o grau zero, a degradação total de valores humanos, éticos e deontológicos do jornalismo, dum canal de TV e do programa matinal.

Entretanto, a RTP paga a um membro de nomeação governamental, Pedro Adão e Silva, para comentar, com se fosse independente. A Direcção decerto partilha os mesmos valores éticos de Adão. A este permitem-lhe que seja tudo ao mesmo tempo, pois tem o tacho oficial e comenta noutros media em simultâneo. Está no Paraíso: é Pedro, Adão e Eva.

Esqueçam lá o Aristides, falemos de mim
A homenagem a Aristides de Sousa Mendes no Panteão terminou assim: António Costa a falar para as TV durante 27 a 31 minutos sobre si, sobre o governo, sobre as suas coisinhas do dia-a-dia. Meia hora! Meia hora em todos os canais de notícias. Qual Aristides! Qual homenagem! A degradação do sentido de Estado de Costa passou por osmose à TV.

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