Os Portugueses (não todos) têm aquilo que merecem!

Já quase tudo foi dito sobre as eleições europeias pelo que vou sobretudo debruçar-me sobre a questão que considero mais importante – que é o facto de os portugueses gostarem mais de representação em política do que olharem para a realidade, embora não resista e comece por escrever algumas notas sobre as europeias e sobre aquilo que não se falou (ou se falou pouco) e sobre alguns disparates do costume:

1. Mais uma vez, tal como em 2009, carregaram os cadernos eleitorais com 1 milhão de eleitores, a abstenção aumentou face às eleições anteriores mas houve mais pessoas a votar. Ou seja, estas coisas estúpidas tornaram-se normais num país terceiro mundista que tem a mania que é rico e não faz nada de forma séria. Sobre abstenção tenho trabalho, sério, publicado e que está a anos-luz dos disparates que se fala e escreve. Em 2009 fui mesmo o único a comentar que a abstenção subiu mas houve mais 160.000 pessoas a votar que nas eleições europeias anteriores (quando eu disse isto em directo a jornalista Patrícia Matos da TVI e 2 colegas que estavam a operar as câmaras iam tendo um “ataque cardíaco” depois de passar uma peça com o Presidente Cavaco Silva, todos os comentadores de serviço incluindo Marcelo Rebelo de Sousa, terem dito que a abstenção tinha aumentado e de darem uns ralhetes aos eleitores). Desta vez, vá lá, alguns comentadores deram pelo “lapso” e referiram isto mesmo. Desafio quem está a ler este artigo, a ir ao site do INE e ver o nº da população portuguesa. Depois vá ver o nº total de eleitores e desconte os eleitores da emigração. Por fim, vejam se o resultado faz sentido.

2. Todos os principais e mais conhecidos órgãos de comunicação social portugueses referem que Portugal fugiu aos extremismos, ao contrário dos outros países europeus onde os partidos de extrema-direita subiram. Ora nada mais falso, é mais uma prova de que além de uma mentira ser repetida muitas vezes, se torna assim numa verdade, como também o facto da comunicação social portuguesa gostar, sobretudo, de levar o Bloco de Esquerda (BE) ao “colo”. Desde há 20 anos que Portugal é o único País da União Europeia com partidos extremistas presentes no Parlamento português (e também Europeu) em que juntos chegam a ter 20% dos votos. Mas como são partidos de extrema-esquerda, a comunicação social tolera-os. Já os de extrema-direita são os maus. Não se entende esta dualidade de critérios em que a extrema-esquerda é boa e a direita é má. Novidade é o facto de há pouco tempo a extrema-direita crescer na europa pois a extrema-esquerda (BE, PCP e Verdes) em Portugal já por cá habita há imenso tempo.

3. Que a CNE, por ser uma entidade oficial, não possa dizer “preto no branco” o nº de deputados que cada partido elegeu, eu entendo, pois faltam os resultados da emigração. Mas a maioria da comunicação social não arriscar (risco mínimo) divulgar resultados finais, é que verdadeiramente me espanta, pois são verdadeiros campeões das notícias inventadas, das falsas, das enviesadas e das enganadoras. Outros vi arriscar, mas para a probabilidade errada, atribuindo ao PCP apenas 1 eurodeputado (a única dúvida actual é se o PS rouba 1 mandato ao PCP). Para quem tiver curiosidade aqui ficam os resultados quase certos: PS-9; PSD-6; BE-2; CDU-2; CDS-1: PAN-1.

Por fim, e o que me leva sobretudo a escrever este artigo, é que os portugueses gostam de ser enganados e a maioria tem o que merece: um País super endividado, no top 3 dos mais envelhecidos do mundo, com péssimos serviços públicos, sem perspetivas de crescer e de melhorar o nível de vida. Vem isto a propósito das europeias de ontem. As sondagens davam o PSD perto do PS. Num golpe de teatro a propósito da chamada “crise dos professores”, o primeiro-ministro ameaçou que se demitia por algo que o partido que dirige já tinha aprovado em 2017 (e sim PSD e CDS estiveram muito mal, é verdade, pois não se pode ter uma posição de Não, Sim e depois “NIM”). A esmagadora maioria dos comentadores apelidou o primeiro-ministro de génio. Eu pergunto? Mas o que qualquer país ou organização precisa não é de um líder que faça a melhor gestão possível e em nome do interesse do país/de todos? Ou é aquele que melhor representa, como se de uma peça de teatro ou novela se tratasse? Na Irlanda, Islândia, Grécia e outros países cujos governos levaram os seus países à falência, os partidos que causaram estes desastres foram varridos do parlamento e existiu uma verdadeira volatilidade eleitoral, optando os eleitores por votar noutros partidos. E Portugal? O governo é constituído por grande parte dos ministros (e o próprio primeiro-ministro), que faziam parte do Governo de Sócrates que tanto prejudicou e causou sofrimento neste País e o levou à falência. O normal seria castigar o partido que provocou tal desastre e procurar votar em alternativas. Mas não, continua a premiar-se a má governação, a governação que beneficia uns em detrimento de outros, o teatro em vez do sentido de Estado. Não admira que os protagonistas não mudem pois sentem-se os donos disto tudo, sabendo que os portugueses são distraídos, têm memória curta, são facilmente enganados e manipulados. E ontem a votação mostrou isso mesmo. É triste mas é a realidade. O problema é que nem todos são assim, não se deixam enganar, são aqueles que não merecem, mas são precisamente aqueles que mais trabalham e puxam pela economia do País, pela criação de emprego e que permitem aos outros, por enquanto, não viver na miséria.

 

Jornal diariOnline região Sul  – 27 de Maio de 2019

Abstenção Eleitoral

 

Decidi escrever este artigo de opinião pelo facto de estar cansado e saturado de ler, ver e ouvir tanta asneira relativamente “à elevada abstenção”… nestas eleições europeias. Desde o cabeça de lista do PS ao Presidente da República, todos dizem o mesmo. Será que todas estas figuras públicas e com responsabilidades de Estado estão cegas? Ou convém este dramatismo todo a propósito da abstenção?

Convido o leitor a espreitar nos sites oficiais, nomeadamente no da Comissão Nacional de Eleições e da Direcção Geral da Administração Interna (cujos dados não coincidem com os da CNE, quem terá razão?…) e vão verificar que o número de pessoas que votou nas eleições europeias de 2009 é superior às de 2004. Irão verificar que em 2004 votaram 3.404.782 pessoas e que em 2009 votaram 3.561.355 pessoas (dados quando ainda faltava apurar um consulado, tendo em conta que escrevo este artigo sem acesso a dados finais), ou seja, os portugueses participaram mais, votaram mais 156.573 pessoas agora do que em 2004. Mas porque razão a percentagem de abstenção aumentou? São vários os motivos:

1. A razão principal é porque com a alteração recente da lei do recenseamento, pessoas que não se interessam pela política e que têm 20, 30 ou 40 anos de idade, nunca se recensearam e agora fazem parte dos cadernos eleitorais, da mesma maneira que fazem parte jovens com 17 anos que ainda não têm idade para votar, ou seja, com este “golpe” os cadernos eleitorais têm mais cerca de 700.000 pessoas, ou seja, 9.679.250 eleitores. Num país com pouco mais de dez milhões de habitantes, alguém acredita que temos tantos eleitores? E menos de um milhão de crianças e jovens com idade inferior a 17 anos?!

2. O elevado número de eleitores fantasma, sobretudo pessoas que já morreram e continuam há muitos anos a fazerem parte dos cadernos eleitorais. Segundo um estudo que fiz com um amigo em 2007 e que podem consultar no meu site www.jose-bourdain.com, demonstramos cientificamente e com estimativas “por baixo” que o nº de eleitores fantasma em 2005 era cerca de 9%, isto é, 785.111 eleitores. Isto acontece porque as freguesias não têm interesse em limpar os cadernos eleitorais, nomeadamente de pessoas que já morreram, pois as dotações orçamentais que recebem é em função do número de eleitores recenseados; aliás, os salários dos responsáveis autárquicos também dependem do nº de eleitores.

3. No caso português, tal como na maioria dos países democráticos, existe uma maior participação nas eleições de primeira ordem – legislativas (pois está em causa a formação do Governo, pelo que são consideradas mais importantes) do que nas eleições de segunda ordem – Autárquicas e Presidenciais, e os dados da abstenção comprovam isso mesmo. No entanto, nos círculos mais pequenos acontece precisamente o contrário, as pessoas votam mais nas autárquicas do que nas legislativas, provavelmente pelo facto do seu voto ser desperdiçado nas legislativas – pois ir votar em partidos de média dimensão é o mesmo que ficar em casa, situação que resulta da imperfeição do nosso sistema eleitoral. Pelo contrário, os votos nas autárquicas contam e as pessoas votam mais (embora esta situação mereça estudo mais aprofundado). Podem também no meu site consultar este estudo. Se nas eleições “caseiras” isto é assim, percebe-se o porquê da baixa afluência às urnas nas europeias – são quase como “eleições de terceira ordem” pelas quais pouca gente se interessa e o voto normalmente é de protesto e para penalizar os governos em funções.

Termino convidando a leitura de um artigo que fiz neste mesmo jornal, onde alerto para o caso de empate técnico entre PS e PSD, o qual pode levar a que o PS possa ter mais votos mas perder as eleições. Os resultados das europeias estão aí e prevê-se uma votação próxima entre estes dois partidos nas legislativas. A acompanhar…

                                                                                              José Bourdain

                                                                                                (Politólogo)

Os Eleitores Portugueses andam desmotivados e de costas voltadas para as eleições legislativas

 É por demais conhecido na literatura, que os eleitores dos países democráticos em geral (e os portugueses não fogem à regra), votam mais nas eleições legislativas (EL) – designadas por eleições de 1ª ordem dado que está em causa a eleição do Governo, do que nas eleições autárquicas (EA), regionais e presidenciais – designadas por eleições de 2ª ordem, na medida em que não está em causa a eleição do governo, não sendo assim consideradas tão importantes.
De facto, é o que à primeira vista acontece em Portugal e todos os estudos apontam isso mesmo. No entanto, ao efectuar uma investigação sobre este fenómeno, descobri que esta situação já foi assim no passado, que desde 1991 ela se tem vindo a alterar e que, nas últimas eleições, esta relação se inverteu. Ou seja, os eleitores portugueses estão, no geral, a votar mais nas EA do que nas EL. Este fenómeno verifica-se sobretudo em 9 dos 10 círculos eleitorais mais pequenos (que elegem entre 2 e 6 deputados) e em 2 dos 8 círculos eleitorais de média dimensão (que elegem entre 8 e 17 deputados).

pdf icon Abstenção

Abstenção ataca menos

Segundo o estudo de José António Bourdain no instituto de Ciências Sociais, os eleitores tendem a votar mais nas eleições autárquicas do que nas lesgislativas. O fenómeno tem-se verificado pelo menos desde as legislativas de 1999.

pdf icon Abstenção ataca menos